HERDEIROS DA DESTRUIÇÂO

por El Responsable

“Ebrias de uma coisa incerta, a que chamaram positividade, essas geraçôes criticaram toda a moral, esquadrinharam todas as regras de viver, e, de tal choque de doutrinas, só ficou a certeza de nenhuma, e a dor de nâo haver essa certeza. Uma sociedade assim indisciplinada nos seus fundamentos culturais nâo podia, evidentemente ser senâo vítima, na política, dessa indisciplina; e assim foi que acordámos para um mundo ávido de novidades sociais, e com alegria ia à conquista de uma liberdade que nâo sabia o que era, de um progresso que nunca definira.

Mas o criticismo fruste dos nossos pais, se nos legou a impossibilidade de ser cristâos, nâo nos legou o contentamento com que a tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, nâo nos legou a indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto o problema político, nâo deixou indiferente o nosso espírito a como esse problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente, porque viviam em uma época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam que dava força à sociedade, para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a destruiçâo e os seus resultados.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitaçâo.”

Livro do desassossego, de Fernando Pessoa; Publicaçôes Europa-América, 2ª parte; pg. 90.

"Man in Abandoned Landscape", de Odd Nerdrum

“Man in Abandoned Landscape”, de Odd Nerdrum